Seguidores

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DE PROFUNDIS



Ninguém foi tão profundo falando de sí mesmo- Oscar Wilde

Não sou do tipo que gosta de fazer apologia a movimentos tidos como "politicamente incorretos", nem de ir contra todos simplesmente pelo fato de querer ser diferente. Muito pelo contrário, quase sempre concordo com o que é "sensato"e com a "razão". Mas... o que é sensatez? Como definir a razão?

Em 1905, Robert Ross publicou uma série de relatos em forma epistolar de um grande amigo e escritor do século XIX, Oscar Wilde. Os relatos em questão são conhecidos pelo nome De Profundis. O livro é, em resumo, a defesa que foi negada a Wilde durante o julgamento que deu início ao fim de sua vida, uma defesa que ninguém se interessou por ouvir já que todos concordavam que Wilde havia "ferido a moral" da sociedade conservadora inglesa da época. Cada uma de suas partes corresponde às cartas que Wilde escrevia para o seu grande amor, na tentativa de fazê-lo entender como ele (o grande amor) havia destruído sua vida e nem olhado para trás a fim de pedir-lhe desculpas.

A história de vida de Wilde já é fascinante por si só. Escritor de peças assistidas por inúmeras figuras importantes da época, e sempre aclamado ao final das apresentações, este escritor irlandês (nascido em Dublin) altamente irônico e perspicaz praticamente abandonou tudo que havia conseguido graças a sua arte para se unir a um jovem mesquinho, egoísta e extremamente fútil, Sir Alfred Douglas.

Após lançar A Importância de Ser Prudente (The Importance of Being Earnest), peça extremamente hilária, e seu maior sucesso sem sombra de dúvidas, a vida de Wilde parecia ter chegado ao auge. Mas uma armadilha do destino levou-o a conhecer Sir Alfred Douglas, jovem de futuro promissor que passava por algumas dificuldades na universidade, e que foi apresentado a Wilde exatamente por isso, uma vez que viam no escritor um grande exemplo para jovens estudiosos. Wilde já havia descoberto sua homossexualidade e conseqüente atração por pupilos, mas tudo não havia passado de distrações até Bosie (como Sir Alfred era conhecido) aparecer em sua vida. Devotando a este jovem todo seu amor, paixão, dinheiro e, até mesmo, a própria arte, Wilde gradualmente deu início ao seu fim, até a morte. Uma vez que o homossexualismo era severamente condenado em sua época, Wilde foi mandado para a prisão em nome do amor, amor por seu "Bosie". Após um infeliz julgamento, iniciado pelo pai de Bosie, Wilde viu-se totalmente cercado de inimigos e falsos moralistas que o acusavam de ter "ferido a moral" ao manter relações íntimas com outro homem, não se importando com o tamanho dos danos que assim causavam à sua vida e à de sua família. Esta é a história real de De Profundis, um dos melhores auto-retratos já escritos por um poeta que, mais do que ninguém, conheceu o verdadeiro significado da palavra "amor".

Durante os dois anos que passou na prisão, Wilde escreveu todos os altos e baixos de sua conturbada "amizade" (como gostava de se referir) com Sir Alfred. Parecido com um diário, De Profundis é o coração e a alma de Oscar Wilde em suas versões mais explícitas e sinceras. E o que mais chama a atenção nesta singular narrativa é o fato de ele nunca ter feito sequer uma revisão na obra. Isso porque, na prisão, apenas duas folhas de papel lhe eram entregues por dia e, mesmo assim, retiradas ao final da tarde, para serem entregues de volta somente na data de sua libertação. Significa dizer que a versão que podemos contemplar hoje, em pleno ano 2002, e quase 100 anos após a primeira edição, é exatamente a mesma que Robert Ross publicou em 1905!

Oscar Wilde foi um exemplo de homem que seguiu seus impulsos e suportou as conseqüências até o fim. Sim, até o fim, pois mesmo depois de liberto, já totalmente esquecido e ignorado por seu grande amor, Wilde procurou Bosie para se decepcionar pela última vez. E morrer doente e sozinho, a não ser por seu fiel amigo Robert Ross.

De Profundis não é apenas a história de Oscar Wilde contada por quem a sofreu na pele; é a história de um grande homem que sofreu por amar, que quebrou as regras para viver o que acreditava ser o certo, seguir sua razão. De Profundis é a prova de que podemos chegar a este nível de amadurecimento. Porque razão é ver sentido no que se faz. E só o amor pode fazer coisas absurdas fazerem sentido.


Por Giselle Fleury






quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ALEXANDRE O GRANDE

 
 
 
Em julho de 356 a.C., o filho de Olímpia e do rei Felipe II da Macedônia nasceu, na mesma época em que seu pai empreendia importantes vitórias militares. Inspirado por tal eventualidade e aconselhado por seus sacerdotes, Felipe II resolveu nomeá-lo Alexandre, que significa “o vencedor de heróis”. Com o passar do tempo, o adjetivo dado àquela criança foi confirmado com o surgimento de um dos maiores conquistadores de toda a Antigüidade.

Segundo o biógrafo, Plutarco de Queronéria, Alexandre sempre demonstrou um comportamento impetuoso e marcado pelo interesse em grandes realizações e honrarias. Quando jovem era um exímio atleta, chegando a ser indicado para participar dos Jogos Olímpicos. No entanto, o grande esportista também tinha forte inclinação para o mundo da música, da poesia e da tragédia. Esse seu lado sensível o inclinava a ver com desdém o caráter despótico e opressor com que seu pai dominava os povos estrangeiros.

A futura capacidade de liderança de Alexandre foi comprovada em um incidente envolvendo um garboso e irrequieto cavalo chamado Bucéfalo. Este animal foi oferecido a um alto preço a seu pai, que recusou-o por conta de sua natureza arisca. Repudiando a decisão do pai, apostou o valor do animal caso conseguisse montar e guiar o impetuoso cavalo. Ao conseguir montar o animal, Filipe II percebeu o caráter singular de seu filho e, sem perder tempo, contratou o filosofo Aristóteles para educá-lo.

O tempo de aperfeiçoamento com o célebre pensador grego foi seguido pelas primeiras experiências militares de Alexandre. Em 340 a.C., com apenas 16 anos, assumiu o trono macedônico temporariamente enquanto seu pai se ocupava em guerras. Dois anos depois, comandou com destreza os exércitos que lutariam contra as cidades gregas de Atenas e Tebas. Com essas vitórias, o Império Macedônico conquistou importantes regiões da famigerada Grécia.

Depois da morte de seu pai – assassinado pelo tio de sua esposa Cleópatra – Alexandre aproveitou do prestígio junto aos exércitos macedônios para declarar sua nova condição de Rei da Macedônia. No ano de 335 a.C., seguindo uma tradição perpetuada pelos gregos, Alexandre foi consultar os ídolos e sacerdotes e sensitivos sobre o seu futuro enquanto rei. Depois de receber dois sinais positivos em Delfos e Lebetra, o novo rei organizou um exército com milhares de soldados.

Fascinado pela idéia de que era descendente do herói grego Aquiles, Alexandre homenageava seu admirado na medida em que conquistava novas terras. Na Batalha de Issos, deflagrada em 1º de novembro de 333 a.C., Alexandre passou a conhecer a exuberante cultura material do povo persa. No momento em que conquistou os palácios do rei persa Dario, o imperador Alexandre – em sinal de respeito – não tomou para si a mulher ou as filhas do rei derrotado.

A atitude amistosa de Alexandre em relação aos povos conquistados rendeu-lhe impressionante admiração. Na corte de seu reino, diversos membros da administração pertenciam ao mundo oriental. No entanto, sua postura compreensiva despertava a desconfiança e o ódio de alguns nobres macedônios. Em dado momento, Clitus – um dos seus fiéis guardiões – foi morto por Alexandre por dizer que o rei se esquecia dos costumes de seu povo.

Mesmo sendo alvo de tantas críticas, Alexandre não hesitou em fortalecer a aliança com os persas ao desposar a princesa oriental Roxane, em 327 a.C.. O gesto realizado pelo imperador macedônico inspirou diversos de seus generais e soldados a tomarem essa mesma atitude, selando a fusão entre os mundos grego e asiático. No ano de 324 a.C. uma grande festa de casamento uniu vários membros da nobreza macedônica às filhas da elite persa. Na mesma ocasião, Alexandre casou-se com mais duas princesas persas.

Em meio às suas conquistas e viagens, Alexandre, O Grande, convivia com o deleito de grandes banquetes e o ardil de seus inimigos. A primeira de suas perdas aconteceu quando Heféstion, seu mais fiel companheiro, morreu tomado por febre. Inconsolável, o rei organizou violentos ataques contra os povos que resistiam à dominação macedônica. Esse período ficou conhecido como o “sacrifício dos funerais de Heféstion”. Logo em seguida, outros maus presságios acometeram Alexandre.

Durante o período em que se dirigia à Babilônia, um dos generais de Alexandre encontrou um fígado para sacrifícios desprovido de lóbulo. Em outra situação, a diadema de Alexandre caiu no mar e um desconhecido ousou sentar-se em seu trono. Tais eventualidades, para o supersticioso Alexandre, eram interpretadas como presságios de morte ou derrota. Ainda sim, o ambicioso rei continuava a conduzir impetuosamente suas grandiosas obras e conquistas militares.

No dia 3 de junho de 323 a.C., Alexandre começou a sentir uma forte febre que o atingira logo depois de um grande banquete. Ao longo dos dias, seu estado febril aumentou vertiginosamente, obrigando-o a seguir viagem carregado em uma esteira. Dez dias depois, o glorioso rei macedônico não resistiu à sua agonizante situação física. Por conta de seus inimigos, alguns levantaram a suspeita de que o jovem conquistador teria sido vítima de um complô político. No entanto, uma das hipóteses mais aceitas indica que ele teria contraído malária.

O corpo de Alexandre foi levado à capital do Império Macedônico, Aigiai. Logo em seguida, Ptolomeu cuidou dos preparativos para que o corpo de Alexandre fosse sepultado em uma imponente construção localizada na cidade egípcia de Alexandria. Com o fim do governo de Alexandre, o império foi alvo da disputa de ambiciosos generais, que esfacelaram a unidade político-territorial em favor de suas próprias ambições. O esfacelamento permitira o fim de toda a conquista realizada por este singular militar e estadista.

Por Rainer Sousa
Graduado em História
 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

OS SEGREDOS DA RAINHA VITÓRIA


A história da Hemofilia é provavelmente tão antiga como a história do homem, mas não seria tão largamente conhecida se a Rainha Vitória de Inglaterra e os seus descendentes não estivessem directamente envolvidos.


O reinado de Vitória foi o mais longo, até à data, da história do Reino Unido e ficou conhecido como a Era Vitoriana. Este período foi marcado pela Revolução Industrial e por grandes mudanças a nível económico, político, cultural e social.


Vitória era filha do príncipe Eduardo, Duque de Kent e da princesa Vitória de Saxe-Coburg-Saalfeld, sendo neta do rei Jorge III do Reino Unido, através do seu pai. Baptizada com o nome Alexandrina Vitória, a família tratava-a informalmente por Drina. A então princesa Vitória de Kent tornou-se politicamente relevante com a morte, em 1830, do tio Jorge IV, sucedido por Guilherme IV também sem filhos. Em 1837 sucedeu a Guilherme IV no Reino Unido.


Conta-se que Vitória estava apaixonada pelo primo, o príncipe Albert de Saxe-Cobourg-Gotha e assim tomou a iniciativa de pedi-lo em casamento (visto que na época ninguém poderia fazer tal pedido a uma rainha). Ele aceitou. Foi a primeira vez que se teve notícias de alguém casar por amor. Vitória era ousada e acrescentou ao seu traje nupcial algo proibido para uma rainha da época – um véu. Nascia aí um costume que atravessaria o tempo e daria a Vitória o reconhecimento de trazer para a nossa época o amor, para unir um homem e uma mulher

A 10 de Fevereiro de 1840, Vitória casou com o príncipe Alberto de Saxe-Cobourg-Gotha, seu primo direito. Tiveram 9 filhos (4 rapazes e 5 moças). Um dos rapazes, Leopoldo, tinha hemofilia e, pelo menos, 2  moças (Alice e Beatriz) eram portadoras. Todos eles casaram com descendentes das diferentes Casas Reais Europeias, porque naquele tempo tinha que ser assim. Por exemplo, se uma menina fosse princesa, tinha que casar com um príncipe, mas não tinha que ser um príncipe do seu próprio país. Uma princesa de Inglaterra poderia casar com um príncipe de Espanha, da França, da Alemanha ou de outro qualquer país. O que importava é que fosse príncipe de algo. Sabe-se agora que não é uma boa ideia casamentos entre primos, mas muitas vezes assim acontecia

Fontes ligadas a esta matéria inclinam-se para o facto de que a hemofilia apareceu nas famílias reais por causa da consanguinidade, facto que não ficou provado ser realmente verdadeiro. Primeiro, porque na época era prática comum entre todas as famílias da Europa, elevadas e baixas, casarem entre primos, dentro da sua própria cidade ou vila, pois assim a pureza do sangue era fortalecida. Segundo, só o facto de uma princesa germânica se ter casado com um príncipe da Rússia (Alexandra e Nicholas II) contrariou também este conceito.

Se houvesse uma maldição sobre a Família Saxe-Coburg, nenhum infortúnio poderia ser tão grande como a hemofilia, descoberta em 1803 por um médico dos Estados Unidos, o Dr. Otto. Acerca da hemofilia ele escreveu "é uma aflição estranha... embora as mulheres não sejam atingidas, elas são capazes de transmiti-la aos seus filhos varões".

A união de Vitória e Albert marcou o começo da hemofilia na linha real britânica que eventualmente afectou a maioria das casas reais da Europa, merecendo assim o título de "doença real" ou "doença de sangue azul". A Rainha Vitória, portadora do cromossoma X defeituoso, culpou-se ela própria por esta ocorrência, aquando do nascimento do seu oitavo filho, o Príncipe Leopoldo e, subsequentemente, dos seus netos, através das suas filhas Alice e Beatriz. De acordo com Lady Elizabeth Longford, "Uma nuvem de preocupação e perplexidade no futuro atingiu a Rainha, causada pelo seu correcto entendimento de que a hemofilia não acontecia ‘só na sua família’. Mas afinal donde é que ela vinha?"


Fontes sugerem que isto ocorreu através de uma mutação genética espontânea quando os primos direitos Vitória e Albert casaram. Longford especulou:


A Rainha pode ter herdado o gene da sua mãe, a Duquesa de Kent, uma princesa de Saxe-Coburg. Mas isto parece não ser provável porque nenhum caso de hemofilia pode ser identificado em ambos os lados da família da Duquesa e nenhuma evidência de hemofilia pode ser também encontrada na família do Duke. Contudo, existiu nas crianças de Vitória e Albert. O príncipe Leopoldo foi a única vítima de entre as suas crianças e em consequência o único transmissor do sexo masculino. As duas Princesas Alice e Beatriz foram transmissoras e os seus casamentos espalharam a doença pelas casas reais da Europa.

Enquanto Vitória observava este flagelo que tinha caído no seu próprio filho, e depois nos seus netos e bisnetos, a mais poderosa mulher do mundo lamentava unicamente, "A nossa pobre família parece perseguida por esta terrível doença". Ela não poderia ter sabido que transmitindo o gene da hemofilia aos seus descendentes, estava a mudar o curso da realeza e da história.


Leopoldo casou em 1882, tinha 29 anos de idade. A sua noiva, Helena de Wedbeck, deu-lhe 2 crianças; uma filha, Alice e um filho. Mas antes do filho ter nascido Leopoldo morreu depois de uma queda em Cannes, tinha 31 anos. A sua filha Alice era certamente portadora e pelo menos um dos seus descendentes, Rupert, tinha hemofilia e veio a falecer em 1928, depois de um acidente de automóvel.


A princesa Beatriz era a filha mais nova da Rainha Vitória. Ela ficou em casa com a mãe durante toda a sua vida. Mesmo o seu casamento com o Príncipe de Battenberg não foi capaz de a retirar do lado da sua mãe. Uma pessoa tímida e sofredora, a Princesa Beatriz ficou conhecida por encostar o seu ombro ao do seu vizinho à mesa de jantar. Ela ficou desolada pela morte do marido em 1896, em África, durante a Guerra Anglo-Boer. Depois da morte da sua mãe, em 1901, Beatriz viveu para as suas crianças, principalmente para a sua filha, Vitória Eugenia. Mãe e filha partilhavam muito em comum, nomeadamente ambas eram portadoras de hemofilia, como ficou conhecido depois de Vitória Eugenia se tornar Rainha na de Espanha.

sábado, 23 de outubro de 2010

A HISTÓRIA DO HINO NACIONAL BRASILEIRO





 Em 1831, Dom Pedro anunciou que estava deixando o trono de imperador do Brasil para seu filho e voltaria a Portugal. Foi a oportunidade que o músico Francisco Manuel da Silva estava esperando para apresentar a sua composição. Ele colocou a letra de um verso do desembargador Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva e o hino foi cantado pela primeira vez no dia 13 de abril de 1831, na festa de despedida de Dom Pedro I. Durante algum tempo, porém, a música teve o nome de "Hino 7 de Abril", data do anúncio da abdicação.
    A letra de Ovídio Saraiva foi considerada ofensiva pelos portugueses. Eles foram chamados até de "monstros". Por isso, ela foi esquecida em pouco tempo, mas a partitura de Francisco Manuel da Silva começou a ser executada em todas as solenidades públicas a partir de 1837. Para comemorar a coroação de Dom Pedro II, em 1841, o hino recebeu novos versos, de um autor desconhecido. Por determinação de Dom Pedro II, a música passou a ser considerada o Hino do Império e deveria ser tocada todas vezes em que ele se apresentasse em público, em solenidades civis e militares, mas sem letra. Era também tocada no exterior sempre que o imperador estivesse presente. Francisco Manuel ficou bastante famoso. Recebeu vários convites para dirigir, fundar e organizar instituições musicais. Mas o Brasil continuava com um hino sem letra.
    Quando a República foi proclamada, em 1889, o governo provisório resolveu fazer um concurso para escolher um novo hino. Procurava-se algo que se enquadrasse no espírito republicano. Primeiro escolheram um poema de Medeiros e Albuquerque, que tinha sido publicado no jornal Diário do Comércio do Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1889. É aquele que começa com o verso "Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós". A letra se encontrava à disposição dos maestros que quisessem musicá-la. No primeiro julgamento, dia 4 de janeiro de 1890, 29 músicos apresentaram seus hinos. A Comissão Julgadora selecionou quatro para a finalíssima.
    No dia 15 de janeiro, numa sessão em homenagem ao Marechal Deodoro no Teatro Santana, perguntaram ao novo presidente se ele estava ansioso pela escolha do novo hino. Ele disse: "Prefiro o velho". Cinco dias depois, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, uma banda marcial composta de 70 figurantes, fanfarra e coro de 30 vozes regida pelo maestro Carlos de Mesquita executou as músicas finalistas. Na ordem, os hinos de Antonio Francisco Braga, Jerônimo de Queirós, Alberto Nepomuceno e Leopoldo Miguez. Nessa primeira audição, segundo o regulamento, estavam proibidos os aplausos. Após um curto intervalo, a banda executou de novo os quatro hinos. Aí, sim, o público pôde se manifestar. O mais aplaudido foi o do maestro Miguez, que também foi escolhido pela Comissão Julgadora. O presidente Deodoro e quatro ministros deixaram o camarote oficial e voltaram em seguida. O ministro do Interior, Aristides Lobo, leu o decreto que conservava a música de Francisco Manuel da Silva como hino nacional. Mesmo sem a partitura, a orquestra tocou a música e a platéia delirou. Como prêmio de consolação, a obra de Medeiros e Albuquerque e de Leopoldo Miguez ficou conhecida como o Hino da Proclamação da República. Só que o problema persistia: o Brasil tinha um hino sem letra. Mas, se a música já era tão bonita, por que precisava de uma letra? Por mais que alguém se habitue a uma música, se ela não tiver letra, fica mais difícil de ser memorizada.
    Só em 1909 é que apareceu o poema de Joaquim Osório Duque Estrada. Não era ainda oficial. Tanto que, sete anos depois, ele ainda foi obrigado a fazer 11 modificações na letra. Duque Estrada ganhou 5 contos de réis, dinheiro suficiente para comprar metade de um carro. O Centenário da Independência já estava chegando. Aí o presidente Epitácio Pessoa declarou a letra oficial no dia 6 de setembro de 1922. Como Francisco Manoel já tinha morrido em 1865, o maestro cearense Alberto Nepomuceno foi chamado para fazer as adaptações na música. Finalmente, depois de 91 anos, nosso hino estava pronto! 

OS AUTORES: 

Francisco Manoel da Silva (1794-1865)


Compositor brasileiro, nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Foi aluno do padre José Maurício e, mais tarde, de Sigismund Neukomm. No reinado de Dom João VI, fez parte da orquestra da capela real como timbaleiro e segundo violoncelista. Grande organizador da vida musical brasileira, fundou e dirigiu a Sociedade de Beneficência Musical (1833), dirigiu a orquestra da Sociedade Filarmônica (a partir de 1834) e compôs valsas, peças para canto e piano (modinhas, lundus), um hino à Coroação (1841) e música religiosa. Escreveu ainda diversas obras de teoria musical.
    De temperamento revolucionário, compôs em 1831 uma melodia patriótica para comemorar a abdicação de Dom Pedro I. Com a letra que recebeu mais tarde, essa composição foi adotada como Hino Nacional do Brasil. 

Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927)

 

Poeta, teatrólogo, ensaísta, crítico e professor, autor da letra do Hino Nacional, nasceu em Pati dos Alferes - RJ a 29 de abril de 1870 e faleceu no Rio de Janeiro a 5 de fevereiro de 1927. Foi professor de português e história do Brasil na Escola Normal e no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e crítico literário do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil, na mesma cidade. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e deixou várias obras poéticas e didáticas: Questões de Português, Noções Elementares de Gramática Portuguesa, Concurso de Obras sobre Língua Portuguesa, Alvéolos (1887), Flora de Maio (1902), O Norte (1909), A Arte de Fazer Versos (1912), História do Brasil (1918), A Abolição (1918), Crítica e Polêmica (1924).

A LETRA :
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido,
De amor e de esperança a terra desce.
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos tem mais flores,
"Nossos bosques tem mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!




sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A FÚRIA DA GRIPE ESPANHOLA

 

 

No início da década de 20, enquanto a Europa reunia os cacos da Primeira Guerra, um inimigo ainda mais devastador assustou o mundo todo e, em dois anos, matou mais de 30 milhões de pessoas: A gripe espanhola

por Moacyr Scliar
Os sintomas todo mundo conhece: febre, dor de cabeça, dores pelo corpo, mal-estar geral, tosse e coriza, ou seja, corrimento nasal. No entanto, esse quadro que hoje se resolve com um comprimido e alguns dias repouso podia significar uma sentença de morte se você vivesse no início do século, mais precisamente em 1918. É que nesse ano uma epidemia de gripe se espalhou pelo mundo e matou entre 30 e 100 milhões de pessoas. A doença, uma variação do virus da gripe comum, causava um terrível agravamento dos sintomas e ficou conhecida como gripe espanhola, ou apenas a espanhola.
Na época ninguém conhecia a causa da doença. O microscópio já era usado e muitas bactérias causadoras de enfermidades tinham sido identificadas, já a partir do século 19. Mas os equipamentos não eram lá muito potentes e não podiam mostrar os virus, que são muito menores que bactérias. Assim, a causa da gripe era (e permaneceu até recentemente) uma incógnita. Ela era associada ao frio. O termo influenza, que é usado como sinônimo para gripe, fala disso. Vem do italiano influenza di freddo, “influência do frio” (de influenza surgiu o nome inglês para a gripe – flu). De fato, é uma doença dos meses frios. Nessa época, tendemos a ficar confinados em casa e o virus pode passar facilmente de uma pessoa para outra.
Também não se tinha certeza que na Espanha tenham surgido os primeiros casos, ainda que o rei espanhol Afonso XIII tenha sido uma das primeiras vítimas ilustres da doença. Muitos pesquisadores defendem a idéia de que a doença começou não na Europa, mas nos Estados Unidos, e foi levada para a Europa pelos soldados que combateram na Primeira Guerra. Ao certo, sabe-se que foi na Espanha que surgiram as primeiras notícias sobre a doença: o país, neutro no conflito, não impunha a censura à imprensa, como acontecia com as potências beligerantes. Assim que a doença surgia em outros países, era logo chamada de “espanhola”. A moda de uns países atribuírem a outros a origem de doenças não é nova: quando a sífilis apareceu, na Idade Média, os franceses chamavam-na de “mal napolitano”, e os italianos de “mal francês”.
Mesmo a expressão gripe espanhola (ou ainda “La Dansarina”) deu lugar, em alguns países, a distintas denominações. Na Rússia soviética era chamada febre siberiana, na Sibéria febre chinesa e na Espanha (que afinal também tinha de se defender) febre russa. A enfermidade se disseminou rapidamente, chegando ao Sudeste Asiático, à China, ao Japão, ao Caribe, às Américas: cerca de um quinto da humanidade contraiu a doença. A letalidade – isto é, a proporção de mortes entre os doentes – era altíssima, duas vezes e meia maior que nos casos de gripe comum. Estima-se que a gripe tenha matado no mundo todo de 20 a 100 milhões de pessoas – muito mais que a Primeira Guerra (cerca de 15 milhões de vítimas) ou mais do que a aids.
A pandemia de gripe devastou populações inteiras. Alguns historiadores acham inclusive que a guerra de 1914-18 pode ter terminado mais cedo por falta de soldados. O fim da guerra, aliás, não significou o fim da pandemia: a Alemanha, derrotada, recebia de volta 6 milhões de ex-soldados desmoralizados e famintos. Isto sem falar em outras regiões do mundo, como África, Índia e China, onde a ausência de dados tornava impossível avaliar a extensão da hecatombe. No Alasca populações foram dizimadas pelo mal que os esquimós acreditavam ser causado por um “espírito branco”. Em Londres, cartazes afixados nos teatros proibiam expressamente tossir. E, nos Estados Unidos, o costume de apertar as mãos foi praticamente abandonado.
A doença se propagou em duas gigantescas ondas: a primeira, na primavera e no verão de 1918. Nessa fase, a gripe era muito contagiosa, mas causou relativamente poucas mortes. Em agosto, contudo, uma forma altamente virulenta da doença disseminou-se pelo mundo, chegando ao auge nos meses de setembro a novembro (ou seja, o outono do hemisfério norte). A curva que mostrava os óbitos por faixas etárias tinha a forma de um W, com três picos, um correspondendo a crianças pequenas, outro a adultos jovens (o que era uma novidade; pensava-se que esse era um grupo mais resistente) e um terceiro, que era o dos idosos. Nos Estados Unidos a expectativa de vida, isto é, o número de anos que uma pessoa pode esperar viver desde o nascimento, foi reduzida em dez anos.
Os brasileiros foram atingidos pela gripe antes mesmo que a doença chegasse ao país. Uma divisão que o governo enviara em navio para participar da guerra adoeceu enquanto a esquadra que transportava os militares estava ancorada em Dacar, Senegal: 156 mortos. E o país não poderia escapar à espanhola. Ainda que as viagens aéreas, que difundiram a Sars (pneumonia que no ano passado causou pânico no Sudeste Asiático), não fossem comuns à época, muita gente viajava de navio – e o país estava recebendo então grandes contingentes migratórios. Em setembro de 1918 chegava um navio com imigrantes vindos da Espanha, vários dos quais com sintomas de gripe. Outros navios foram apontados, entre eles o inglês Demerara, que atracou em Recife e Salvador, mas o certo é que no início de novembro de 1918 a doença já estava no Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram.
“Já morrem 24 pessoas por dia em Coritiba”, dizia uma manchete do dia 14 de outubro. Na mesma data, um anúncio: “Precisa-se de dois cocheiros na Empreza Funerária de P. Falce”. Essas manchetes dos jornais da época reproduzidas no livro O Mez da Grippe (assim mesmo, com essa grafia), de Valêncio Xavier, dão uma idéia do quadro assustador. A reação entre os curitibanos foi de pânico. Por causa disto, as notícias a respeito foram censuradas. O livro mostra a primeira página do jornal Diário da Tarde, em que, de um artigo sobre “A Influenza”, só ficou o título – o resto está em branco. Já o Commercio do Paraná adotou uma atitude diferente; a epidemia seria apenas uma gripe comum. Mas teve de admitir, em 25 de outubro: “A nossa edição de hontem saiu muito aquem da expectativa em conseqüência de terem adoecido operários da secção da composição, obrigando-nos assim ao sacrifício de materia redaccional cuja inserção foi absolutamente impossivel.”
Em outras cidades a repercussão não foi menor. A imprensa carioca estava cheia de notícias alarmantes – e de protestos contra as autoridades sanitárias, consideradas omissas: “O que se está passando na Saúde do Porto da nossa capital é simplesmente assombroso. Os navios entram infeccionados, os passageiros e tripulantes atacados saltam livremente contribuindo para contaminar cada vez mais a cidade, não soffrendo os navios o mais rudimentar expurgo! [...] Telegrammas chegados ha dias de Estados do Norte, annunciaram detalhadamente dezenas de casos de ‘influenza hespanhola’ occoridos a bordo da ‘Itassucê’. Era o caso do Sr. Carlos Seidl tomar providencias energicas, para isolar os enfermos e expurgar o navio, mal chegasse elle á Guanabara, si s.ex levasse a sério seus deveres. Nada disso, entretanto, aconteceu. O ‘Itassucê’ chegou, foi desimpedido e os doentes desceram calmamente á terra, sem que o director da Saude Publica mandasse tomar a minima providencia!” (Rio Jornal, 11 de outubro de 1918).
Ou esta outra notícia: “Em todas as ruas, e a todas as horas, vemos cahir subitamente, tombar sobre a calçada victimas do mal estranho. Os hospitais estão repletos.” (Rio Jornal, 14 de outubro de 1918). A criticada “medicina official”, como aconteceu com as autoridades em Curitiba, tentava minimizar o problema e evitar o pânico. Mas, no final de 1918, a gripe era, no Brasil e no mundo, uma realidade brutal. O jornal A Rua, de 15 de outubro de 1918, fazia uma denúncia: “Desde as primeiras horas em que se declarou a epidemia que a romaria ás pharmacias não parou nem um instante. Houve então uma grande desorientação e uma ignobil exploração por parte de algumas pharmacias. Os preços variavam de pharmacia para pharmacia e de bairro para bairro. O tubo de bromo-quinino passou a custar de 1500 a 8 mil e 9 mil réis. Uma limonada purgativa 4, 6 e 8 mil réis. Uma capsula com 25 ctgrs. de Sulphato de Quinino custava 400 réis, no maximo, custa 2 e até 3 mil réis! É o furto, parecendo que nem se quer estamos numa cidade policiada! Mas a necessidade era grande e os doentes nos milhares, o que fez com que apezar do descabido escandaloso dos preços, os medicamentos se esgotassem. Várias pharmacias, especialmente nos suburbios, allegam tambem a doença do seu pessoal. Que será da população sem ter sequer medicamentos”?
Esses medicamentos, diga-se, não tinham qualquer efeito sobre a doença. O quinino era usado para malária, que é, porém, uma enfermidade totalmente diferente da gripe, causada por protozoário e não por virus. Também eram inócuos os “Conselhos aos que se acham no inicio da infecção”, dados pela Diretoria Geral de Saúde Pública, e que começavam com um purgativo forte (além de ter gripe, a pessoa ficava também com diarréia). Em termos de dieta, indicava-se a tradicional canja de galinha (que pelo menos, a exemplo da cautela, não fazia mal a ninguém). O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Diante disso a Diretoria Geral de Saúde Pública voltou atrás: “O uso do frango ou da gallinha não é indispensavel. A dieta poderá ser mantida por meio de leite, caldo de sopa de cereaes, de legumes, de lentilhas, de arroz, aveia, centeio, etc., etc.”
E continuava: “Fazer diariamente uso de uma solução de essencia de canela, conforme as seguintes dóses: uma colherinha das de café em meio copo de agua assucarada, de duas em duas horas, até desapparecer a febre. Depois tomar uma colherinha em meio copo de agua tres vezes ao dia.”
Claro, é fácil achar graça dessas medidas quase 90 anos depois, mas os médicos recomendavam aquilo que imaginavam ser útil. É preciso dizer que a campanha contra a gripe era comandada por ninguém menos que o sanitarista Carlos Chagas, descobridor da doença que leva seu nome, grande pesquisador e um dos discípulos prediletos de Oswaldo Cruz. Entre os conselhos da saúde pública, havia alguns apropriados: evitar aglomerações, guardar repouso em caso de doença. De qualquer maneira, o quadro era sombrio em 2 de novembro de 1918, Dia de Finados (“Nunca o dia dos mortos foi tão propriamente um dia de mortos como o de hoje”, dizia a manchete de A Noite).
No Rio de Janeiro morreram cerca de 12 mil pessoas em dois meses. Na cidade, como faltavam coveiros, presidiários foram convocados para fazer esse trabalho. Os corpos muitas vezes eram transportados em bondes. Os hospitais não tinham vagas e a hospitalização, por sua vez, não evitava o óbito. No Hospital Deodoro, na Glória, os cadáveres formavam uma pilha de 2 metros de altura. As ruas estavam desertas; as pessoas não se atreviam a sair. Em Porto Alegre, foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe. Em todo o país foram cerca de 35 mil mortos. Nos últimos meses de 1918, uma esperança: o novo presidente seria Rodrigues Alves, conhecido por ter livrado, em seu primeiro mandato, a capital Rio de Janeiro de epidemias de febre amarela, peste e varíola. Mas ele não chegou a assumir o cargo. Morreu em 16 de janeiro de 1919, de gripe espanhola.

Dormindo com o inimigo

A virologia progrediu imensamente com o susto de 1918. Mas só em 1933 o virus da gripe foi isolado pela primeira vez, por Andrew, Smith e Laidlaw, na Inglaterra. Mas não era o agente causador da espanhola. Como era esse virus? A dúvida persistia e motivou conhecidos pesquisadores, como os americanos Jeffery K. Taubenberger e Johan Hultin. Eles encontraram o virus em cadáveres preservados pelo frio. Em 1951, os cientistas da Universidade de Iowa exumaram corpos de vítimas da gripe sepultados no Alasca. Uma outra fonte de possível material eram amostras de tecidos obtidas em necrópsias realizadas em 1918, que eram preservados em parafina. Os esforços deram resultado. Uma amostra de tecido pulmonar de um soldado americano forneceu aquilo que Taubenberger e seus colaboradores ansiosamente buscavam: fragmentos intactos da substância viral, cuja composição pôde ser identificada. O mesmo se encontrou na amostra de um segundo cadáver.
Hultin, por sua vez, isolou material viral dos pulmões de uma mulher da etnia inuit, conhecida como “Lucy”, sepultada no Alasca. Taubenberg foi além e, em 2002, conseguiu criar um vírus com os genes mais letais do espécime de 1918 (esse revelou-se mais agressivo para os animais de laboratórios do que os outros ”fabricados” com genes do vírus da gripe habitual). O argumento para esse tipo de estudo é o de conhecer melhor o “inimigo”, identificar sua estrutura e descobrir como ela muda. Muitos cientistas, contudo, fazem objeções a esse trabalho. Alegam que já temos um número suficiente de vírus gripais estudados e que “ressuscitar” o vírus de 1918 significaria “libertar o demônio”. Mas o receio de toda a comunidade é óbvio, sobretudo em uma época que transformou a guerra bacteriológica em ameaça e em obsessão. Como observou outro pesquisador, Jan van Aken, se Jeffery Taubenberger estivesse trabalhando num laboratório russo, chinês ou iraniano, seria visto como um inimigo em potencial.

Da Espanhola à Sars

A gripe de 1918 continuou provocando ondas de choque que chegaram até nossos dias. Cada vez que surgiam casos novos da doença era aquele calafrio: será que a espanhola está voltando? Cepas do virus da gripe com material genético recentemente incorporado causaram pandemias em 1957 e 1968. A pandemia de 1957 ficou conhecida como gripe asiática, por ter se iniciado na China e na Indonésia. No Brasil, a asiática foi diagnosticada primeiro no Rio Grande do Sul, sendo logo depois detectada no Rio de Janeiro e em São Paulo. Uma nova causa de alarme surgiu em 1976: recrutas de Fort Dix, nos Estados Unidos, contraíram uma doença gripal que levou um deles à morte. Dessa vez o agente causador da doença foi isolado. Era um virus de gripe suína. Ora, muitos cientistas achavam que a gripe de 1918 tinha sido exatamente isso, uma virose transmitida pelos porcos aos seres humanos. O pânico chegou aos altos escalões do governo americano, na administração do presidente Gerald Ford.
Era véspera de eleições e uma epidemia poderia ter sérias conseqüências políticas. Uma vacina foi preparada às pressas e, em meio a discussões, aplicada em 40 milhões de pessoas. Várias delas tiveram problemas neurológicos (a síndrome de Guillain-Barré), o que só fez aumentar a controvérsia. No fim, a epidemia não ocorreu. Uma outra fonte de infecção foi identificada em 1997, em Hong Kong, quando 18 pessoas foram infectadas por um vírus comum em aves. Isso gera uma alarmante analogia com o vírus da Sars, que possivelmente veio de aves na China.

Saiba mais

Livros
O Mez da Grippe, Valêncio Xavier, Companhia das Letras, 1981
Gripe: A História da Pandemia de 1918, Gina Kolata, Record
A História e suas Epidemias, Stefan Cunha Ujvari, Senac, O primeiro é um romance feito de colagens de recortes de jornais sobre a gripe, tratada em nível mundial no segundo livro. Já Ujvari fala das outras epidemias que abalaram o mundo

sábado, 9 de outubro de 2010

A Guerra da Cabanagem -



Na década de 1830, a província do Grão-Pará, que compreendia os estados do Pará e do Amazonas, tinha um pouco mais de 80 mil habitantes (sem incluir a população indígena não-aldeada). De cada cem pessoas, quarenta eram escravos indígenas, negros, mestiços ou tapuios, isto é, indígenas que moravam nas vilas.
Belém, nessa época, não passava de uma pequena cidade com 24 mil habitantes, apesar de importante centro comercial por onde era exportado cravo, salsa, fumo, cacau e algodão.
A independência do Brasil despertou grande expectativa no povo da região. Os indígenas e tapuios esperavam ter seus direitos reconhecidos e não serem mais obrigados a trabalhar como escravos nas roças e manufaturas dos aldeamentos; os escravos negros queriam a abolição da escravatura; profissionais liberais nacionalistas e parte do clero lutavam por uma independência mais efetiva que afastasse os portugueses e ingleses do controle político e econômico. O resto da população - constituída de mestiços e homens livres -, entusiasmada com as idéias libertárias, participou do movimento, imprimindo-lhe um conteúdo mais amplo e mais radical.
A grande rebelião popular, que aconteceu em 1833, teve origem num movimento de contestação, ocorrido dez anos antes e que havia sido sufocado com muita violência, conhecido como "rebelião do navio Palhaço".
O descontentamento que dominava não só Belém, mas igualmente o interior do Pará, aumentou com a nomeação do novo presidente da província, Lobo de Souza. O cônego João Batista Campos, importante líder das revoltas ocorridas em 1823 e duramente reprimidas, tornou-se novamente porta-voz dos descontentes, principalmente da igreja e dos profissionais liberais.
A Guarda Municipal, pró-brasileira, era conscientizada por um de seus membros, Eduardo Angelim, que denunciava sobretudo os agentes infiltrados em toda parte.
A partir de 1834, as manifestações de rua se multiplicaram e o governo reagiu prendendo as lideranças. Batista Campos, Angelim e outros líderes refugiaram-se na fazenda de Félix Clemente Malcher, onde já se encontravam os irmãos Vinagre. Ali foi planejada a resistência armada.
Iniciava-se a Cabanagem, a mais importante revolta popular da Regência. Esse nome indicava a origem social de seus integrantes, os cabanos, moradores de casas de palha. Foi "o mais notável movimento popular do Brasil, o único em que as camadas pobres da população conseguiram ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade", segundo o historiador Caio Prado Júnior.
As forças militares foram extremamente violentas, incendiando a fazenda de Malcher e prendendo-o juntamente com outros líderes. Revoltado, o povo de Belém acompanhava os acontecimentos. O destacamento militar de Abaeté se rebelou em protesto contra a perseguição feita a Eduardo Angelim. Após a morte de Batista Campos, o grupo se rearticulou em quatro frentes e atacou Belém. Com a adesão de guarnições da cidade, a vitória foi total. O presidente da província, Lobo de Souza, e o comandante das tropas portuguesas foram mortos, e os revoltosos, soltos. Malcher foi aclamado presidente da província.
Iniciava-se o primeiro governo cabano. Sem muitas lideranças, o povo escolheu Clemente Malcher, por ser um homem respeitado por todos. Porém, ele continuava com "cabeça" de fazendeiro e começou a tomar atitudes que os cabanos consideraram traição. Os desentendimentos levaram à primeira importante ruptura das lideranças: de um lado, Malcher e as elites dominantes, e, de outro, os Vinagre e Angelim, juntamente com os cabanos e boa parte da tropa. Malcher foi preso, mas, a caminho da cadeia onde ficaria por algum tempo, foi morto por um popular.

Fonte: br.geocities.com

sábado, 2 de outubro de 2010

PALÁCIO DE VERSALHES




Um mundo à parte: assim é Versalhes no final do século I8. Além do enorme palácio real, o local é composto por prédios anexos que abrigam toda a corte e servem de sede do governo. A 23 quilômetros de Paris e alheios à vida miserável da maioria dos franceses, os nobres vivem uma rotina de futilidades financiada pelos impostos cobrados da população. As 10 mil pessoas instaladas aqui (quase 3 mil membros da nobreza e, de resto, empregados e funcionários) gastam 6% de toda a arrecadação francesa. Quase todo o resto é consumido por dívidas militares e sobra muito pouco para os outros 19 milhões de franceses espalhados pelo país. Desinteressado de seu papel de governante, Luís XVI se mantém distante das atividades políticas.

A rainha, Maria Antonieta, distrai a corte com boa música, jogos e festas caríssimas que arrastam o país ao extremo da irresponsabilidade administrativa. Um dia na história do Palácio de Versalhes é suficiente para entender os motivos da revolução que viria em 1789, levaria os reis à guilhotina e poria fim à monarquia absolutista.

Saiba mais
www.chateauversailles.fr

OUI MADAME, NON MONSIEUR
Os empregados da corte vêm de famílias pobres e têm, entre outras obrigações, que recolher penicos e escarradeiras e despejar o conteúdo nas fossas do lado de fora do palácio. Mas trabalhar no palácio tem suas vantagens: a comida é farta e é possível subir posições dependendo do talento ou de favores. Em dias de festas, sem a presença de lacaios, os nobres urinam atrás das cortinas dos salões

CABEÇAS COROADAS

Grandes festas acontecem pelo menos três vezes por semana. Algumas duram dias e têm óperas e jogos nos jardins. Há também recepções mais íntimas, organizadas no Petit Trianon, a residência particular da rainha. Para se ter uma idéia, só os gastos ali somam 1 milhão de libras por ano. O rei raramente participa desses embalos. Ele leva uma vida quase reclusa em seus aposentos, com amigos, amantes e gatos

PEGA LADRÃO

Apesar da numerosa guarda real, é comum haver larápios e batedores de carteira infiltrados nas festas. Relógios, moedas e objetos valiosos somem com freqüência, até dentro dos aposentos do rei. Também ficam cada vez mais constantes as visitas de indigentes ao palácio. É uma massa faminta e indignada com a boa vida da nobreza que, um dia, fará eclodir uma revolução

PARADA DE SUCESSO
As artes recebem grandes incentivos da corte. Mozart e Salieri se apresentam em concertos semanais. Peças de teatro são financiadas pela rainha (quase 1200 foram encenadas nos 19 anos de reinado) e mais de 20 mil obras entre pinturas, desenhos e esculturas estão expostas no palácio. Pensadores e intelectuais também são respeitados e se tornam assuntos nas rodinhas. Trata-se de gente como Diderot, Rousseau e Robespierre

DIETA JÁ

Comer é uma festa. Aqui, um almocinho simples envolve dezenas de empregados, cerca de 40 bocas para alimentar. São pelo menos sete opções de pratos para cada um dos serviços: entradas, sopas, carnes, assados, vegetais e legumes, sobremesas, cafés, licores. Os pratos impressionam o paladar e os olhos. Num único dia, são consumidos 60 gansos, além de dezenas de peixes e outras aves em quantidade ainda superior

VERDE PARA POUCOS
Passear pelos canteiros dispostos em formas geométricas é uma das atividades mais comuns e prazerosas por aqui. O próprio rei Luís XVI costuma caminhar de 4 a 8 quilômetros entre os 132 quilômetros de ruelas ladeadas por árvores frutíferas. Para manter esse verde todo, além dos canais, lagos e fontes são necessários 3600 metros cúbicos de água por hora. Enquanto isso, apenas algumas dezenas de casas têm água em Paris

CUSTO DE VIDA

Manter-se em Versalhes é caríssimo: é preciso vestir-se de maneira luxuosa, ter dinheiro para os jogos de cartas, para as carruagens e os cabeleireiros. Enquanto uma família burguesa de vida mediana gasta 15 mil libras por ano, uma duquesa gasta a mesma quantia em um único vestido, bordado a ouro. Os burgueses – que negociam os tais tecidos – estão enriquecendo à custa dos caros hábitos da nobreza

CONSPIRAÇÃO
A pouca afinidade do rei Luís XVI com a política abre espaço a facções políticas afeitas a todo tipo de corrupção e intriga, as chamadas coteries. A convivência tão próxima de grupos divergentes cria um clima cínico nos salões, onde as conspirações são comuns e gestos e olhares estão sempre carregados de segundas intenções

Revista Aventuras na História

CURIOSIDADES SOBRE MARIA ANTONIETA DE AUSTRIA

 
 
 
Última rainha da França, Maria Antonieta (1755-1793) era uma lançadora de moda inquieta e contestadora. Chocou ao vestir calças, até então exclusivas dos homens. Deixou de lado os espartilhos de barbatana de tubarão e adotou peças leves para se aproximar dos camponeses. Quando queria exibir sua riqueza, surgia em público com vestidos suntuosos e penteados rocambolescos de quase 1 metro de altura. Para a historiadora francesa Caroline Weber, tudo isso faz de Maria Antonieta uma precursora das celebridades atuais, em especial a cantora Madonna. Autora do livro Rainha da Moda (Zahar), recém-lançado no Brasil, Caroline defende que a nobre foi pioneira em um comportamento que hoje é comum entre os famosos: "Ela fazia aparições estratégicas e vazava informações sobre seu modo de vestir para a mídia". Com isso, seu estilo alcançou as massas, a ponto de provocar protestos de damas ricas, que diziam que essa atitude colocava em risco as diferenças entre as classes sociais. Na entrevista, Caroline explica as maiores inovações trazidas por Maria Antonieta, antes que a Revolução Francesa de 1789 apeasse a monarquia do poder.

Entrevista com Caroline Weber

O que diferencia Maria Antonieta de outras rainhas da época?

Em primeiro lugar, ela foi a primeira figura real européia a descobrir que não era necessário seguir as tradições para ganhar o respeito do povo. Percebeu que o modo de vestir poderia ser o componente essencial de sua fama. Além disso, fez com que o mundo fashion ficasse acessível para pessoas de todas as classes.

Ela pode ser comparada a alguém?
 
Sim, à cantora Madonna. A rainha mudava constantemente sua aparência, ia dos penteados extravagantes aos rústicos camisetes que usava em seu retiro particular, passando pelas andróginas silhuetas masculinas de montaria. Ela se reinventava constantemente, uma maneira de manter o público curioso sobre sua próxima faceta. Também como Madonna, a rainha acendeu os debates nacionais sobre a sexualidade feminina.

Por que a rainha usou branco para ir à guilhotina, em 1793?

A escolha foi intencional. Era uma forma de se declarar, de maneira corajosa, como mártir e leal guardiã da monarquia. Com sua roupa, ela dizia aos revolucionários que eles haviam tomado a coroa, mas jamais quebrariam seu espírito.

Revista Aventuras na História

OS AMORES DE NAPOLEÃO BONAPARTE



Na marcha sobre o coração da Europa, o último grande imperador do Ocidente conquistou mais do que terra e glória: fez do poder uma arma de sedução. Descubra o general que só suas amantes conheceram

Lira Neto
A bela e jovem Caroline, de 16 anos, filha de madame Grégoire Colombier, logo notou que aquele tenente baixinho, magricela e de uniforme amarrotado estava caído de amores por ela. Tímido, envergonhado do sotaque estrangeiro, ele não tinha coragem de declarar-se. Limitava-se a acalentar uma paixão platônica, enquanto os dois colhiam cerejas na casa de campo da família dela, em Basseaux.
O rapaz confessava seus sentimentos apenas para o diário que mantinha trancado em uma gaveta no quartinho que alugara em Valence - a primeira cidade para onde fora mandado a serviço do Exército francês. “Sempre solitário entre os homens, volto para casa, para sonhar na solidão e entregar-me à força de minha melancolia”, escreveu ele. “Na verdade, o que faço neste mundo? Já que terei de morrer, não é mais lógico me matar?”, indagava-se, aos 17 anos, Napoleão Bonaparte.
Até então, jamais experimentara o calor dos braços de uma mulher. Como sabemos, o jovem Napoleão não escolheu o suicídio. Nos últimos dois séculos, sua história já foi contada de muitas formas. Ele foi desde o gênio militar que transformava derrotas certas em vitórias até o hábil político capaz de se tornar imperador de uma nação que, anos antes, havia levado seus reis à guilhotina.
Despido das armas e fora do trono, contudo, Napoleão era demasiado humano. E, para se entender a vida de um homem, poucos recursos são tão valiosos quanto conhecer o modo como ele amou suas mulheres.
O gato de botas
Napoleão nasceu em Ajácio, na Córsega, em 15 de agosto de 1769, ano em que a ilha, a oeste da atual Itália e antes pertencente ao estado genovês, acabara de passar ao domínio da França, após malograda tentativa de independência. “Nasci quando minha pátria estava morrendo”, diria ele mais tarde.
Do primeiro flerte, ainda nos tempos de escola, não guardava boas lembranças. Os colegas de classe não lhe perdoavam os olhares que lançava para a pequena Giacominetta, então sua companhia predileta nos intervalos do colégio. “Napoleone di mezza calzeta, fa l’amore a Giacominetta!” (”Napoleão de meias caídas é amante de Giacominetta”, numa livre tradução do italiano), tripudiavam os meninos, atiçando a ira do garoto, que respondia atirando-lhes pedras e palavrões cabeludos.
Quando tinha 10 anos, Napoleão foi enviado pelo pai para estudar na França. Aos 15, o jovem franzino foi admitido como cadete na Escola Militar de Paris, onde se formaria artilheiro em tempo recorde: dez meses, quando o normal seriam três anos. O rapaz havia renunciado às tentações da cidade e mergulhado com afinco nos estudos do Tratado de Matemática, do professor Bezout, um calhamaço de quatro volumes cujo conteúdo era a base do exame final para os aspirantes a oficial da artilharia.
Com apenas 16 anos, Napoleão já envergava o garboso uniforme de tenente do Exército francês. Sempre com a gravata amarfanhada e cabelos gordurosos, notariam as moçoilas casadoiras de Paris. As botas negras e sujas pareciam grandes demais para aquele par de pernas finas e curtas, o que lhe valeria o apelido de “Gato de Botas”, dado por uma jovem amiga, a futura escritora Laure Permon. “Sua pele era amarelada e parecia insalubre, os traços de seu rosto eram angulosos e marcados”, descreveria Permon em suas memórias.
Com tal estampa, não era de admirar que o jovem oficial ainda não conhecesse os prazeres do amor. Isso durou até certa noite de novembro de 1787, quando uma das muitas prostitutas que borboleteavam nas imediações do Palais Royal, no centro de Paris, foi abordada por ele.
O rapaz tinha 18 anos, mãos trêmulas e, a muito custo, depois de uma verdadeira sabatina - onde ela nascera, de onde viera, como perdera a virgindade -, convidou-a a deitar-se com ele. Para uma profissional do ramo, ficou óbvio que o primeiro cliente da noite era um homem inexperiente. “Eu a aborreci depois, com minha insistência para que não fosse embora”, confessaria um constrangido Napoleão nas páginas de seu diário.
Gigante e anão
Em 1789, aos 20 anos, enquanto as massas tomavam as ruas de Paris durante a Revolução Francesa, Napoleão pediu licença da corporação e voltou para sua terra natal. Lá, aproveitando-se da atmosfera libertária que varria o país, liderou um movimento que elevou a Córsega de região conquistada a parte integrante da nova França que surgia. “Foi ali que ele teve, pela primeira vez, a sensação de provocar acontecimentos, de fazer a história. Sensação totalmente nova, que o embriagou”, diz o historiador francês Max Gallo, autor da mais consagrada biografia de Napoleão.
De volta a Paris, Napoleão foi promovido a capitão com apenas 23 anos de idade. Um ano depois, após comandar um ataque bem-sucedido a forças britânicas que dominavam o porto de Toulon, no sul da França, ganhou o posto de general-de-brigada.
Foi a partir daquele combate que a soldadesca começou a reverenciar-lhe a audácia e a coragem. Contavam, com entusiasmo, sobre como ele ia à frente da tropa, exposto ao fogo inimigo. Mesmo após ter seu cavalo morto em batalha e ser ferido com um golpe de baioneta na coxa, havia continuado a lutar e, com a farda banhada em sangue, incitado seus soldados a seguir adiante.
Hábil estrategista e guerreiro arrojado, aquele homem de cerca de 1,60 metro parecia transformar-se em gigante no ardor do combate. Mesmo assim, diante dos olhares femininos, continuava a sentir-se um anãozinho.
Em um período de dois anos, propôs casamento a pelo menos meia dúzia de mulheres. Todas o rejeitaram. De nada adiantaram as aulas de dança e os cursos de etiqueta que fazia para tentar melhorar seu desempenho. Faltava-lhe tato para abordar as eleitas, mesmo as muito feias ou muito velhas.
A sexagenária madame Montausier, dona de um teatro e de um bordel em Paris, foi uma das que o rechaçaram. Já a quarentona madame Permon, mãe da jovem Laure Permon, não conseguiu evitar uma gargalhada ao receber a proposta de ser conduzida ao altar por Napoleão, que além da deselegância habitual passara a sofrer também com a sarna, doença adquirida nos campos de batalha. “Além do mais, tenho idade suficiente para ser sua mãe”, teria respondido a senhora.
Porém, naquela época, pelo menos uma donzela se apaixonou de verdade pelo general: Bernardine Eugénie Désirée, 16 anos. Contudo, para desgosto da jovem, o romance não foi adiante. O pai dela, François Clary, um negociante de sabão, já havia concedido a mão da primeira filha a José Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão.
É verdade que o novo candidato a genro tinha uma carreira militar em ascensão. Mas Clary almejava algo mais que casar outra de suas filhas com um imigrante. “Já basta um Bonaparte em nossa família”, sentenciou o pai, insensível às lágrimas de Désirée.
A enxaqueca do general
Elegante e com uma aura de voluptuosidade, Josefina de Beauharnais era a viúva de um visconde morto na guilhotina durante a Revolução Francesa. Na lista dos que perderam a cabeça por ela, logo entraria também Napoleão. Para o general corso, casar-se com uma nobre representante do Antigo Regime significaria um passo a mais em sua gradual inserção na sociedade parisiense.
Aos 26 anos, Napoleão já era comandante-geral do Exército do Interior (em breve, suprimiria o “u” do sobrenome original - Buonaparte - com o objetivo de afrancesar-lhe a pronúncia). Para a balzaquiana Josefina, pouco importava se o general era seis anos mais novo que ela. Calculou que um casamento com o prestigiado comandante poderia significar a garantia de bem-estar para seus dois filhos, Eugène, de 14 anos, e Hortense, de 12. E o antes desleixado Napoleão agora estava mais apresentável, mantendo os cabelos limpos e as roupas salpicadas com água-de-colônia.
Em março de 1796, os dois se casaram. Na certidão, a noiva aproveitou para suprimir dois anos à própria idade, enquanto Napoleão tratou de acrescentar dois à sua. Mas o casal mal teve tempo de aproveitar a lua-de-mel: dois dias depois da cerimônia, o general foi enviado para dar combate aos austríacos, no norte da península Itálica.
Enquanto Josefina permanecia em Paris, esbanjando fortunas em recepções luxuosas, o marido enviava-lhe do front uma carta febril atrás da outra: “Beijo seus seios e mais embaixo, muito mais embaixo”, escrevia Napoleão, enquanto os canhões trovejavam ali perto. A esposa lia as declarações de amor e de desejo, guardava-as no criado mudo e quase nunca as respondia. “Meu marido não me ama. Ele me idolatra. Creio que acabará maluco”, confidenciava ela às amigas e ao novo amante, o capitão Hippolyte Charles - um homem que, segundo Josefina, além de experiente nas artes do amor, tinha outra qualidade que também faltaria a Napoleão: ele a fazia sorrir.
Em um dos intervalos da campanha da Itália, o general foi até Milão, onde Josefina havia combinado de esperar por ele. Mas esposa não estava lá. “Depois de quase desmaiar de consternação, o homem que conquistou o norte da Itália caiu doente, com enxaqueca”, diz outro de seus biógrafos, o americano Steven Englund.
Mesmo com o coração partido, o gênio militar fez os austríacos dobrarem os joelhos em derrotas sucessivas. Josefina viu Napoleão regressar à França em outubro de 1797, na condição de herói nacional.
Em pouco tempo, ele foi encarregado de comandar uma nova e ambiciosa expedição armada, dessa vez para o Egito. De lá, pretendia alcançar a Índia, então uma colônia sob o domínio da Inglaterra, o mais poderoso inimigo da França.
No Egito, consciente das traições de Josefina, Napoleão decidiu que era hora de dar o troco. Impressionou-se de imediato com a belíssima Pauline Fourès, de 20 anos, que se disfarçara de homem para poder acompanhar o marido, um tenente da cavalaria, durante a campanha militar.
O comandante despachou o tenente para uma outra missão e alojou a encantadora Pauline em uma casa bem ao lado de seu quartel-general. A jovem não resistiu aos assédios de Napoleão. “Foi a primeira mulher com quem ele se comportou como dono e senhor”, diz Max Gallo.
O general não fazia nenhuma questão de esconder o romance. Os próprios soldados passaram a tratar Pauline como “a soberana do Oriente” e “Cleópatra loura do general”. Ao mesmo tempo, Napoleão manteve um caso com a filha de um xeique, a egípcia Zenab (quando os franceses deixaram o país, ela teve a cabeça cortada por sua união com o general inimigo).
A campanha do Egito de 1798 não repetiu o êxito obtido na Itália (encabeçando a lista dos maiores reveses, a frota francesa de navios foi destruída pelo almirante inglês Horatio Nelson). Mas, para Napoleão, o pior golpe estava por vir: Josefina não estava em casa para receber o guerreiro no retorno do campo de batalha.
Bonaparte decidiu que o divórcio era a única saída honrosa que lhe cabia. Desta feita, foi a vez de Josefina cair desmaiada. De joelhos, pediu perdão ao marido, que, enfurecido, trancou-se no quarto sozinho.
Depois de horas de súplica, Napoleão deixou-a entrar. Abraçou Josefina e a perdoou. O general implacável capitulava diante das lágrimas de uma mulher.
O harém do imperador
“Minha única paixão, minha única amante é a França. É com ela que me deito”, proclamava Napoleão. Em breve, isso seria mais que uma frase de efeito.
Com o apoio do povo, que o saudava como herói nas ruas, planejou e executou um golpe de Estado que o levou ao poder, em 1799. Instituiu o Consulado, triunvirato exercido por ele e dois aliados de ocasião. Não demorou muito e se impôs como “primeiro cônsul”.
Estabeleceu uma nova Constituição, amordaçou jornais, eliminou potenciais adversários. Para completar, determinou que seu poder passaria a ser vitalício. Em 1804, oficializou o que já era realidade: restaurou a monarquia e, aos 35 anos, tornou-se imperador da França. Josefina foi coroada imperatriz.
Além de Josefina e da França, entretanto, Napoleão se deitava com outras. Ao lado de seu escritório, mandara construir uma alcova em que recebia as mais belas mulheres que seus assessores conseguiam encontrar nos salões da corte. Estas eram introduzidas no recinto com a recomendação de que o esperassem sob os lençóis, completamente despidas.
Entre amantes fortuitas, houve casos mais intensos. Entre eles, o que manteve com uma famosa atriz de teatro, mademoiselle Georges, a quem apelidou de Georgina. Quando o criado do imperador abordou a atriz pela primeira vez, ela ficou chocada com a obscenidade do convite. Mas, logo depois, sentiu-se honrada em visitar os aposentos íntimos do senhor mais poderoso da Europa - e, por conseqüência, de todo o mundo. “Mas continue a fazer cara de assustada, ele gostará disso”, sugeriu-lhe o criado.
Josefina sabia dos adultérios do marido, mas suportava em silêncio. Permaneceu assim inclusive quando Napoleão mostrou-se apaixonado por uma condessa polonesa de 32 anos. Maria Waleska havia sido encorajada pelos compatriotas - e pelo próprio marido - a seduzir o imperador francês.
O objetivo era convencer Napoleão a restituir a independência da Polônia em relação à Rússia, à Áustria e à Prússia (que dividiam entre si as sobras do antigo reino, desintegrado a partir de 1795). Maria Waleska aceitou a missão. Na primeira noite em que dormiram juntos, ele praticamente a violentou. Nem assim ela reclamou. Pelo contrário, apaixonou-se por ele. Chegaria a dar-lhe um filho. Algo que Josefina nunca conseguira fazer.
Divórcio e derrota
Com o nascimento do filho bastardo, Napoleão convenceu-se de que poderia, sim, gerar um herdeiro - até então, considerava a possibilidade de ser estéril, embora tudo indicasse que ele já era pai de outro filho ilegítimo.
Divorciar-se de Josefina se tornou inevitável. “Continuo a amá-la. Mas a política não tem coração, só cabeça”, teria dito à esposa durante o último jantar, segundo relato do barão de Bausset, administrador do palácio imperial. “A imperatriz, naquela noite, era a imagem da tristeza e do desespero”, escreveria Bausset, que diz ter visto Josefina dar gritos lancinantes prostrada em um tapete diante do marido.
Com base em documentos da época, a historiadora francesa Evangeline Bruce, autora de Napoleão e Josefina, reconstituiu a última cerimônia pública em que os dois apareceram juntos, na sala do trono. “Josefina estava determinada a ser lembrada para sempre como a mais encantadora, a mais cativante de todas as imperatrizes”, diz.
Diante dos súditos, Napoleão anunciou publicamente a separação. “Só Deus sabe o que essa resolução custou ao meu coração. Encontrei coragem para isso apenas na convicção de que minha decisão serve aos melhores interesses da França”, explicou ele, solenemente.
Josefina, por sua vez, esforçou-se para permanecer firme: “Com a permissão de meu querido e augusto marido, ao acatar tal decisão, orgulhosamente ofereço a ele a maior prova de afeto e devoção jamais dada a um homem nesta terra por uma mulher”. A seguir, comovida, entregou o resto de seu discurso de despedidas para que um ajudante-de-ordens acabasse de lê-lo.
Antes mesmo de divorciar-se de Josefina, Napoleão passara a procurar uma noiva de sangue azul para lhe dar um príncipe herdeiro. Encontrou-a na arquiduquesa Maria Luísa, a pouco formosa filha do imperador austríaco, dona de um par de olhos protuberantes, andar desengonçado e lábio proeminente.
Napoleão não se importou. “Não é preciso que uma esposa seja uma mulher bonita. Já em relação a uma amante, é o contrário. Uma amante feia é uma monstruosidade. Faltaria a ela seu principal, ou melhor, seu único dever”, havia escrito, anos antes, em uma carta ao irmão José.
A união de Napoleão e Maria Luísa, celebrada em 1810, selaria um armistício entre adversários ferrenhos, Áustria e França. Um ano depois, nascia François Charles Joseph Bonaparte, a quem por direito deveria caber o título de Napoleão II.
A chegada do menino fez Maria Luísa passar a reinar também sobre o coração do marido. “Tenho um filho. Sou um homem feliz”, escreveu Napoleão. Em carta aos parentes da Áustria, ela se mostrava igualmente contente: “Meu amor cresce a cada dia. Quando me lembro da ternura que este homem me dedica, mal posso conter as lágrimas”.
Tudo correu bem até que, em 1812, na Rússia, Napoleão viu seu idílio e seu império começarem a ruir. Acossado pelo rigoroso inverno russo, ele foi obrigado a bater em retirada diante das tropas do czar. Assim, abriu o flanco para seus inimigos.
Em 1813, Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria uniram-se e acabaram com a hegemonia francesa na Europa. No ano seguinte, Paris foi sitiada e Maria Luísa viu-se obrigada a abandonar a cidade. “Impediram-me de ir encontrá-lo. Disseram que, se preciso, usarão a força para deter-me”, escreveu ela, desesperada, ao marido.
Enfim chegara o dia de Napoleão provar o sabor amargo da derrota. Mas, para ele, era melhor pôr fim à própria vida que suportar o estigma do fracasso. “A morte não é nada. Mas viver vencido e sem glória é morrer todos os dias”, costumava dizer.
Antes de ingerir uma dose letal de veneno, Napoleão escreveu uma carta de despedida: “Você é quem eu mais amo no mundo. Minhas desgraças só me pesam pelo mal que fazem a você. Um beijo para nosso reizinho. Adeus, minha querida Luísa”.
Coração exilado
Napoleão só continuou vivo porque teve um acesso involuntário de vômito e expeliu o veneno. Após abdicar do trono, alquebrado, foi obrigado a partir para o exílio na ilha de Elba, próxima à Córsega.
Mais uma vez, Maria Luísa não pôde acompanhá-lo. Em março de 1815, Napoleão voltou à França e foi reconduzido ao trono. Durante cerca de 100 dias no poder, chegou a invadir a Bélgica, mas foi derrotado por uma aliança anglo-prussiana na célebre batalha de Waterloo, em junho.
Forçado a abdicar pela segunda vez, amargou novo e definitivo exílio em Santa Helena, uma ilhota dominada pelos ingleses, perdida no meio do Atlântico. Nascido numa ilha, Napoleão morreria em outra, a 5 de maio de 1821.
Com 51 anos, o general estava doente, obeso e deprimido. Como um de seus últimos pedidos, solicitou que, na autópsia, arrancassem-lhe o coração e o enviassem a Maria Luísa. Mas as ordens britânicas eram claras: Napoleão jamais poderia deixar a ilha - vivo ou morto, inteiro ou em pedaços.
Sem o coração do marido, Maria Luísa tratou de cuidar do seu. Ao saber da morte do general, casou-se em segredo com o ajudante-de-ordens Adam Albert Graf von Neipperg, seu amante austríaco.


BIOGRAFIA DE CASTRO ALVES


Antônio Frederico de Castro Alves (Curralinho, 14 de março de 1847 — Salvador, 6 de julho de 1871) foi um poeta brasileiro.
Nasceu na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de "Curralinho", hoje Castro Alves, no estado da Bahia.

Suas poesias mais conhecidas são marcadas pelo combate à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como "Poeta dos Escravos". Foi o nosso mais inspirado poeta condoreiro.

Sua mãe faleceu em 1859. No colégio, no lar por seu pai, iria encontrar uma atmosfera literária, produzida pelos oiteiros, ou saraus, festas de arte, música, poesia, declamação de versos. Aos 17 anos fez as primeiras poesias. No dia 10 de novembro de 1863 teria recitado os primeiros versos em festa no Ginásio Português.

O pai se casou por segunda vez em 24 de janeiro de 1862 com a viúva Maria Rosário Guimarães. No dia seguinte ao do casamento, o poeta e seu irmão Antônio José partiram para o Recife, enquanto o pai se mudava para o solar do Sodré.

Em maio, submeteu-se à prova de admissão para o ingresso na Faculdade de Direito do Recife sendo reprovado. Mas seria em Recife tribuno e poeta sempre requisitado nas sessões públicas da Faculdade, nas sociedades estudantis, na plateia dos teatros, incitado desde logo pelos aplausos e ovações, que começava a receber e ia num crescendo de apoteose. Era um belo rapaz, de porte esbelto, tez pálida, grandes olhos vivos, negra e basta cabeleira, voz possante, dons e maneiras que impressionavam a multidão, impondo-se à admiração dos homens e arrebatando paixões às mulheres. Ocorrem então os primeiros romances, que nos fez sentir em seus versos, os mais belos poemas líricos do Brasil.

Em 1863 a atriz portuguesa Eugénia Câmara se apresentou no Teatro Santa Isabel. Influência decisiva em sua vida exerceria a atriz, vinda ao Brasil com Furtado Coelho. No dia 17 de maio, Castro Alves publicou no primeiro número de A Primavera seu primeiro poema contra a escravidão: A canção do africano. A tuberculose se manifestou e em 1863 teve uma primeira hemoptise.

Em 1864 seu irmão José Antônio, que sofria de distúrbios mentais desde a morte de sua mãe, suicidou-se em Curralinho. Ele enfim consegue matricular-se na Faculdade de Direito do Recife e em outubro viaja para a Bahia. Só retornaria ao Recife em 18 de março de 1865, acompanhado por Fagundes Varela. A 10 de agosto, recitou O Sábio na Faculdade de Direito e se ligou a uma moça desconhecida, Idalina. Alistou-se a 19 de agosto no Batalhão Acadêmico de Voluntários para a Guerra do Paraguai. Em 16 de dezembro, voltou com Fagundes Varela a Salvador. Seu pai morreu no ano seguinte, a 23 de janeiro de 1866. Castro Alves voltou ao Recife, matriculando-se no segundo ano da faculdade. Nessa ocasião, fundou com Rui Barbosa e outros amigos uma sociedade abolicionista.

Em 1866, tornou-se amante de Eugênia Câmara.

Teve fase de intensa produção literária e a do seu apostolado por duas grandes causas: uma, social e moral, a da abolição da escravatura; outra, a república, aspiração política dos liberais mais exaltados. Data de 1866 o término de seu drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, representado na Bahia e depois em São Paulo, no qual conseguiu consagrar as duas grandes causas de sua vocação. No dia 29 de maio, resolveu partir para Salvador, acompanhado de Eugênia. Na estreia de Gonzaga, dia 7 de setembro, no Teatro São João, foi coroado e conduzido em triunfo.

Obras:

Poesia

 
Espumas Flutuantes, 1870

 
A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876

 
Os Escravos, 1883

 
Hinos do Equador, em edição de suas Obras Completas (1921)

 
Tragédia no Mar

 
O Navio Negreiro

 
Teatro

 
Gonzaga ou a Revolução de Minas, 1875

 
Fonte: Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.